20081025

Reportagem 14


Empresários ignoram crise e buscam mercado americano


Nem mesmo a crise internacional e a iminente desaceleração de Estados Unidos e Europa impedem os empresários brasileiros de traçar planos de investimento no exterior. E um mercado que ainda desperta interesse da iniciativa privada brasileiro para o próximo ano é o epicentro da crise: o norte-americano.

Os empresários brasileiros interessados no mercado americano afirmam que, apesar da crise, é importante marcar presença nesse momento, uma vez que quando o país retomar o consumo habitual, os itens já estarão inseridos num grande centro de negócios.

Segundo o documento Perspectiva Econômica Mundial (WEO, na sigla em inglês), do Fundo Monetário Internacional (FMI), a economia dos EUA em 2009 crescerá apenas 0,1%, ante a estimativa de 0,8% feita em julho. Para 2008, o organismo elevou a projeção de 1,3% para 1,6%, na comparação à projeção feita em julho, mas o número permanece abaixo dos 2% registrados em 2007. Já o PIB (PIB) global deve crescer 3% em 2009.

A empresa de equipamentos médicos, hospitalares e laboratoriais, Fanem, fundada em 1924, tem um plano preestabelecido de inserir seus produtos no mercado dos EUA já em 2009. Segundo a diretora da empresa, Marlene Schmidt Rodrigues, a crise não afetou o planejamento do grupo. "Não podemos criar situações fantasmas no projeto e sim buscar agarrar as oportunidades nesse mercado", informa.

A representante informa que o grupo tem exportado em larga escala a regiões do mercado Árabe, além da Ásia e países africanos. "Vamos entrar no EUA primeiramente com alguns produtos . Já na Europa, exportamos para Turquia, Grécia, França e Inglaterra", acrescenta destacando que o centro de negócios da Agência Nacional de Promoção as Exportações (Apex) é um instrumento utilizado pelo grupo.

Marlene Schmid argumenta que o planejamento da empresa sempre prevê crescimento. "Temos planos até de inaugurar uma nova fábrica em 2009", diz sem informar mais detalhes. Apesar do otimismo, a diretora deixa claro que entende os riscos oriundos dessa crise. "Estamos apostando nossas fichas na redução de custos. O objetivo é reduzir gastos em equipamentos, sem perder qualidade e sem cortar pessoal para passar essa fase difícil", conclui.

Quem pensa da mesma forma são os diretores da Mineoro - Indústria Eletrônica. Segundo Mônica Galnares, diretora da empresa, mesmo sendo considerado pequeno, o grupo exportou em 2007 aproximadamente US$ 300 mil, e deve chegar a US$ 500 mil em 2008. De acordo com a expectativa do grupo, mesmo diante da crise, 2009 deve ter um aumento de 30% no volume vendido. "Temos um bom mercado nos países árabes e na América do Sul, mas queremos expandir nossos produtos para os Estados Unidos no próximo ano", afirma.

Para Cesar Damasio, diretor comercial da empresa, todo o empresariado precisa ser um pouco otimista. "Para nós não houve redução de demanda pelos produtos, que continuam no mesmo ritmo. Pelo contrário, o câmbio mais alto tem sido até melhor para as exportações", comenta.

Conforme o diretor de relações internacionais da Sadia, José Augusto Lima de Sá, as exportações da empresa em 10 anos saíram de US$ 1 bilhão para US$ 5 bilhões, em 2007. Já para 2008, o grupo espera fechar o ano com US$ 7 bilhões. "Sem dúvida temos fundamentos fortes que fazem a Sadia vender bem a 130 mercados", informa. O representante acrescenta que a crise não mudou os planos do grupo para o comércio internacional, já que os mercados que compram seus itens são diversificados. "Devemos trabalhar de forma diferente com cada mercado. Vender produtos com proteína para os países que precisam dela e outros para quem exige mais biossegurança ou praticidade, entre outras necessidades". Recentemente, a Sadia perdeu R$ 760 milhões no mercado de derivativos cambiais, mas Augusto disse que isso não afetou os planos do grupo. "Temos fundamentos fortes e isso não contaminou nosso planejamento. Fizemos, em 2006, um investimento de US$ 2 bilhões para exportarmos mais o que nos dá garantia que conseguiremos atender a demanda em 2009", conclui.

Meta

O ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic), Miguel Jorge, defendeu que os exportadores brasileiros trabalhem com otimismo visando expandir seus mercados. Segundo ele, dá para atingir a meta de exportação mesmo com a crise. "Acredito que vamos chegar a US$ 202 bilhões esse ano e o governo fará um esforço concentrado para o volume não desacelerar em 2009." O ministro acrescentou que o governo está empenhado em garantir todo o crédito necessário para que o setor continue vendendo. "As ações do Banco Central são para que os recursos chegam aos exportadores. Caso contrário, conversarei com o [Henrique] Meirelles para verificar quais são os entraves que impedem os recursos de chegarem ao seu destino", encerra.