
Bahia na rota da sórdida exploração sexual de crianças
No lugar das brincadeiras de infância, da conversa com a turma de amigos e da paquera tão característica da adolescência, a exploração do corpo em troca de um artigo da moda, de uma promessa de emprego e da realização de um sonho qualquer. Essa é a realidade de milhares de meninas e meninos traficados e explorados sexualmente por agenciadores que formam redes de comércio sexual. Uma pesquisa inédita na Bahia realizada pela Secretaria de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos, em parceria com o Instituto Winrock, de origem americana e a Organização Internacional do Trabalho (OIT) revela o perfil do tráfico e do abuso comercial de crianças e adolescentes no Estado.
De acordo com o relatório lançado durante o V Encontro Internacional sobre Direitos Humanos, Segurança Pública e Enfrentamento ao Tráfico de Seres Humanos, no Centro de Convenções, 54%,5 têm entre 12 e 15 anos, 86% pertencem ao sexo feminino, 40,9% são negras, 55% só possuem o ensino fundamental, mais de 30% só sabem ler e escrever, 65% têm renda inferior a um salário mínimo e 54,5% é oriunda de outros municípios.
O documento gerado através da pesquisa - realizada entre os meses de janeiro a março deste ano - em Feira de Santana e Salvador traça a situação do crime no Estado, a partir do contato com 22 vítimas. Além disso, o relatório mostra os mecanismos usados pelas redes de exploração e aponta os caminhos para o Plano do Comitê Estadual de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas, criado ano passado.
Vítimas são traficadas e exploradas
Crianças e adolescentes que saem de várias localidades dentro e fora da Bahia, a exemplo do Ceará e que vão ser exploradas em outras regiões. Dessa forma se configura a exploração de menores no Estado. “O que nos surpreendeu foi que esse tráfico é interno, através de deslocamentos intermunicipais e sazonalmente, ou seja, em épocas de carnaval e festas religiosas. As meninas são levadas para onde tem festa de grande impacto e ou locais com bastante aglomeração”, conta a socióloga e assessora técnica do estudo, Graça Gadelha, enfatizando a existência de apenas um caso de adolescente por tráfico internacional, que foi levada para Argentina.
De acordo com a socióloga fica evidente a falta de fiscalização nas rodovias brasileiras, onde existem 1.800 pontos de vulnerabilidade. “Essas crianças transitam facilmente de carro e ônibus pelas estradas de nosso país. Além disso, a rede funciona com a parceria e conivência de setores do turismo, empresas, hotéis e motéis”, relata.
Em outro estudo qualitativo, quando as crianças e adolescentes são questionados, se iriam morar em outro lugar com a promessa de melhorar de vida, mesmo sem saber o que seria o trabalho, mais de 90% respondem que aceitam. “Se eles não têm expectativa de vida ficam mais vulneráveis às redes de exploração que tentam atraí-los pela carência que essas crianças possuem de alguma coisa, como estrutura e apoio familiar e bens materiais”, ressalta Gadelha “Basta um passeio pela orla, centro histórico e bairros periféricos de Salvador ou pelas rodovias e postos de gasolina do interior do Estado para se encontrar meninas e meninos com estórias de vida, que geralmente começam com a pobreza e ausência de atendimento das suas necessidades básicas, o abuso e a violência dentro da própria casa, evoluem, na total falta de perspectivas de mudança desse quadro, para a busca de uma vida melhor no exterior, na capital ou em qualquer outro lugar que pareça oferecer algo melhor”, diz a representante do Instituto Winrock, Débora Aranha.
A maioria das vítimas de aliciamento e comércio sexual já sofreu abusivo por um parente e ou pessoa próxima e vive sob a linha da pobreza. Para a secretária de Justiça e Direitos Humanos do Estado Marília Muricy, o mais grave nessa situação é ainda o silêncio e a indiferença da sociedade por medo. “É preciso ter um mínimo de capacidade de correr riscos para favorecer a moral social. Além da articulação entre as secretarias e os órgãos do Estado no sentido de prevenir, reprimir o crime e atender as vítimas é preciso que a sociedade denuncie.
É necessário que as pessoas olhem para aquela criança explorada como se fossem seus filhos”, afirma.
Do romance ao inferno do sexo na Itália
De uma simples paquera de carnaval de Salvador para um romance intenso que se tornou à peça chave para o inferno da exploração sexual na Itália. Essa é a história de uma jovem que sofreu até conseguir se livrar de uma rede de prostituição e exploração sexual européia que tem sustentáculos também no Brasil.
Há dois anos, a soteropolitana se envolveu com um italiano na faixa dos 30 anos, que durante dois meses foi um “verdadeiro príncipe” para ela, e que somente na Itália se revelou como um traficante especializado em seduzir e capturar pessoas para o comércio sexual. “Os dias em que ele ficou comigo foram de sonhos, viajamos, ele conheceu a minha família e o meio onde eu andava. Ele se mostrava muito educado e carinhoso, jamais eu iria desconfiar do que ia fazer”.
Depois que foi embora, a jovem e o estrangeiro continuaram o namoro por telefone e Internet e ele a convidou para passar 15 dias na França. O rapaz a abasteceu de todas as despesas da viagem enviando 500 euros. “Lá na França vivemos em lua de mel e ele continuou se mostrando uma pessoa maravilhosa. Foi então que me chamou para conhecer a Itália. Para esse destino fomos de trem e descemos em Milão, onde ele disse que teria que viajar para resolver algo do trabalho e iria me deixar na casa de uma amiga. Não desconfiei de nada. Ao chegar na casa essa amiga que falava italiano fluentemente me tratou muito bem. Somente no dia seguinte tomei um susto quando fui acordada por ela falando alto e em português dizendo: Acorda seu sonho acabou. Você vai ter que me pagar uma dívida de oito mil euros.”
Naquele momento, a jovem se viu vítima de um esquema milionário que a escravizaria por mais de um ano. “Cada coisa que eles compravam para mim minha dívida aumentava e eu ainda tinha que pagar mais 250 euros por semana”, conta. Ameaças de morte à sua família no Brasil, perseguições e violência viraram uma rotina em sua vida. Uma vigília em torno de seus passos a impedia de telefonar para os amigos e a família e o seu dia-a-dia era um inferno de cobranças. “Um dia vi eles jogarem ácido em uma das meninas. Era terrível”
Para se livrar da situação, ela aproveitou uma brecha que lhe permitiu enviar um email para uma amiga contando tudo que estava passando. A partir desse contato a polícia brasileira acionou a embaixada que chamou a Interpol para cuidar do caso. Um agente precisou se fingir de cliente dela para conseguir retirá-la da casa e enviá-la de volta ao Brasil. “Passei várias necessidades, fiquei presa por 33 horas e vi muita coisa triste”, lembra a jovem, enfatizando que a atuação dos traficantes e exploradores é grande.
Um levantamento do Escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crime (UNODC) mostra que o tráfico de pessoas movimenta por ano, em todo o mundo, de US$7 bilhões a US$9 bilhões de dólares, perdendo em lucratividade apenas para as drogas e o contrabando de armas. Cerca de 90% desse tráfico está relacionado com a exploração sexual e as principais vítimas são mulheres, crianças e adolescentes com entrada crescente também de homens. No estudo, o Brasil é apontado como território de origem, trânsito e destino de pessoas traficadas para diversas finalidades.