20081026

Reportagem 25


O que é que o acarajé tem?


O mais famoso quitiute da Bahia gera emprego e renda em Salvador

Feijão fradinho, cebola, sal e azeite de dendê. Com estes quatro ingredientes é feito o principal produto da culinária baiana: o acarajé. De origem africana, o bolinho tornou-se um dos maiores símbolos da Bahia. Tombado no final do ano passado pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional), o acarajé é fonte de renda para milhares de pessoas e movimenta um mercado consumidor que pode gerar até R$ 150 mil por mês a uma única baiana.


Servido com camarões, vatapá, caruru, salada de tomates e a famosa pimenta, em Salvador, o acarajé vende mais do que qualquer sanduíche das grandes redes de fast food. Rita Santos, 52, vice-presidente da Associação das Baianas de Acarajé e Mingau (Abam), estima que existam cerca de cinco mil pontos de venda só na capital baiana. Destes, apenas dois mil têm registro na associação.


A vice-presidente afirma que não há dados precisos sobre a produção diária do bolinho em Salvador, mas estima que os quatro maiores quituteiros do Estado (Dinha, Cira, Regina e Gregório) vendam cerca de dez mil acarajés por dia. Para se ter uma idéia do que isso significa, o mais famoso sanduíche do mundo, o Big Mac, vende diariamente, de acordo com o gerente de mercado do Mc Donald’s em Salvador, Marcos Amaral, somente 450 unidades na cidade. Vale ressaltar que o acarajé, por ser um produto praticamente artesanal, não conta com o poder da mídia através de publicidades.


Apesar de movimentar milhões de reais por ano, o mercado do acarajé, não apresenta, até o momento, estudos oficiais sobre o volume do setor. “Acho que seria impossível cadastrar todas as vendedoras de acarajé de Salvador, pois muitas não têm licença para exercer a atividade, não querem divulgar o seu faturamento, ou não seguem as regras determinadas pelo Iphan – para vestimenta, feitura dos produtos, tamanho e composição do tabuleiro”, diz Rita Santos.


A vice-presidente da Abam afirma não existir uma tentativa de limitar a venda do acarajé às filhas e filhos de santo, mas que, independente da linha religiosa, “a baiana de acarajé é um símbolo e deve haver uma padronização que o Iphan exige que seja seguida”, diz. Para a representante da categoria, a baiana do acarajé deve usar saia rodada, torço e bata.


Preço – Talvez o valor o acarajé seja um dos principais motivos para o seu alto consumo. Variando entre R$ 1,50 e R$ 3,50, a iguaria passa longe do preço dos sanduíches que fazem a base do fast food. “O acarajé, além de mais nutritivo, é maior, mais gostoso e muito mais barato. Com o preço de um sanduíche desses, eu como vários acarajés”, diz o estudante Hilton Souza, 18.


Rita Santos afirma que existem baianas, no bairro do Comércio, que chegam a vender dez acarajés por minuto, a R$ 1,50 mais o refrigerante. Em uma hora são 600 bolinhos ou R$ 900,00. Em oito horas de trabalho serão 4800 acarajés rendendo R$ 7200,00. “Além de Cira, Regina, Gregório e Dinha, cada bairro de Salvador tem a sua baiana”, diz. Famosas em suas comunidades, elas possuem uma clientela fiel, que utiliza o “boca-a-boca” como a mais poderosa e eficiente propaganda.

Ascensão Social- A história da maioria das baianas de acarajé é bem parecida: são mulheres negras, de baixa renda e que começaram no ofício seguindo os passos da mãe. Jaciara de Jesus Santos, 51, é um exemplo disso. Cira do Acarajé, como é mais conhecida, começou há quase 40 anos, no ponto deixado pela mãe, D. Odete, em Itapuã. Na época, o acarajé só era vendido com pimenta. Com o passar dos anos, foram acrescentados o camarão, o vatapá, a salada de tomates e o caruru.


Hoje, Cira é a mais famosa quituteira da Bahia, vendendo cerca de dois mil acarajés por dia, com o faturamento mensal que pode chegar a R$ 150 mil. Ela teve, recentemente, seu acarajé, abará e cocadas eleitos, pela revista Veja, como os melhores do Brasil.
Talvez por causa de sua infância pobre, Cira se preocupe com as pessoas carentes do bairro onde desenvolveu o seu comércio. Além de já ter criado cinco filhos adotivos, ela doa, todos os meses, 150 quilos de alimentos para a Paróquia de Itapuã. Fornece os “acarajés do folclore” para uma creche no Alto do Coqueirinho. E afirma que não consegue negar comida aos meninos de rua que, diariamente, fazem fila no ponto onde trabalha, em Itapuã.


Perguntadas sobre o que é que o acarajé tem, as baianas, quase sempre, são unânimes em dizer: “amor, trabalho e muita dedicação”. A julgar pela expansão dos negócios de Cira e Dinha – que já possuem restaurantes – esta é uma receita de sucesso.